Relicário do Coração
A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre. - Clarice Lispector.
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Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor engolir a labuta
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai! Afasta de mim esse cálice!

Chico Buarque e Gilberto Gil, Cálice

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?
Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

Livros e Flores, Machado de Assis.  

O jovem pinta o rosto, sinto sua fúria pelo modo que pega o pincel e oculta seus olhos… acredito que seja novo, talvez lá pelos dezenove. No rádio ao lado, toca uma música do Legião Urbana, a poesia cantada serve de inspiração. Afinal, “Que País é Esse?” - Em um condomínio próximo, outros milhares de jovens repetem o mesmo ato, seja ouvindo Chico ou Caetano - sinto que o mundo será “vingado”, que Prestes não morreu, que Garibaldi ainda navega por nossos mares e que Zumbi mandou notícias do Quilombo. Os jovens pintados lembram-me do impeachment, fico um tanto alegre… o antigo revolucionário em meu interior pede voz. Mas ouve decepção. A juventude pinta o rosto, mas não sai nas ruas - eles gritam das janelas, nas redes sociais. Temos fetos de Mussolini nas páginas de Humor Negro, vemos jovens admiradores do Comunismo nas bibliotecas ou em salas de aula, mas não vemos fetos de Che Guevara, não vemos jovens fazendo protestos em frente a hospitais particulares que rejeitam um paciente em estado emergencial. Mas vemos jovens passando dias na fila de um show e nenhum doando sangue para os necessitados - o pensamento Marxista ainda circula em algumas faculdades, e ao mesmo tempo, uma mãe passa fome com seu filho do lado de fora. Somos parte de um sistema, olhamos Cuba como a parte podre das Américas… mas esquecemos que a podridão existe em todos nós, Cuba sobrevive há anos embargada pelos EUA… e tem uma possível descoberta pra cura do câncer de pulmão. A população que sofre nos hospitais cubanos pode ser curada. E a nossa ignorância, poderá?

Vivemos num mundo doente.

Lucas Truci, Hipocrisia Juvenil.

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo pra poder aproveitar a
aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho no colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando… e termina tudo com um ótimo orgasmo. Não seria perfeito?

Charles Chaplin 
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Olho pra trás, e vejo: Logo eu que tanto reclamei da solidão. Nunca estive só.

Lu-zir 
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Vendo e aprendendo sobre o passado, entendemos o nosso presente e planejamos o nosso futuro. E nisso, vemos que as várias causas da vida, viveram o ontem, vivem o hoje, e sobreviverão no futuro. E nós nos encarregamos de aprender o que aconteceu, viver o hoje, e registrar tudo para contar e continuar a história do futuro. Vivemos assim. Passando de um pro outro que se vive, o que se sente, o que se conta e o que foi contado. E nós, seremos com todos mais lá na frente. O que foi feito, planejado, consumado. O ciclo que nunca irá ser rejeitado. Lei da vida, e da memória.

Lu-zir (via inter-planetario)

Você pode me dizer por que as pessoas se esforçam tanto para esconder seu eu verdadeiro? Ou por que sempre me comporto de modo muito diferente quando estou perto dos outros? Por que as pessoas confiam tão pouco nas outras? Sei que deve haver um motivo, mas algumas vezes acho horrível não poder confiar em ninguém, nem mesmo nas pessoas mais próximas.

O Diário de Anne Frank.  

Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio.

Fabrício Carpinejar.

Quem nunca quis estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou ter uma Kombi hippie para rodar uma estrada infinita com os amigos? Quem nunca fez um pedido a uma estrela cadente, ou ao menos quis ter um telescópio só para ver aquele astro que cruza o céu uma vez a cada duzentos anos? Quem nunca misturou doce com salgado, ou quente com gelado? Quem nunca quis ser uma mosca só para entrar pelo buraco de uma fechadura e ouvir a conversa alheia? Quem nunca sonhou em viajar pelo mundo todo, ou quis morar em uma bela casa de frente para o mar e ter o mais encantador dos jardins? Quem nunca quis aprender a falar todos os idiomas existentes no mundo? Quem nunca olhou pela janela do quarto e tentou pegar a lua com os dedos da mão? Quem nunca chorou ao ver uma cena triste de um filme de romance? Quem nunca tomou banho na chuva, ficou no sereno, andou descalço e depois pegou um baita de um resfriado? Quem nunca olhou uma nuvem e começou a imaginar as mais diversas figuras que ela poderia formar, ou quão bom seria comer um pedaço do céu que deve ter sabor a algodão doce? Quem nunca quis ser capitão de um navio? Quem nunca quis atravessar um deserto, andar sobre o mar, ser uma borboleta, flutuar na gravidade zero, chegar o mais perto possível do sol, guardar vaga-lumes em um pote de vidro para iluminar o quarto, poder respirar embaixo da água, ou pegar uma pérola dentro de uma ostra nas profundezas do oceano? Quem nunca sonhou de olhos abertos não sabe o quanto está perdendo.

Não basta viver, tem que sonhar, Gabriela Savian.

Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás. Então eu pego o passado, e transformo em poesia-ou-coisa-assim.

Caio Fernando Abreu. 

Quero ler mais livros. Escutar mais músicas. Assistir mais filmes. Quero ter menos preguiça, sentar mais no chão, correr mais pelo parque. Sabe, essas coisas fazem com que eu me sinta livre. Acho ruim a gente ter que se aprisionar. Quero sair de noite, caminhar sem rumo, ficar olhando para o céu. Pode soar bobo, mas isso pra mim é tão importante.

Clarissa Corrêa. 

Antes de amar-te amor nada que me rodeasse estava no seu devido eixo. A vida era um completo buraco sem chão, onde eu me sentia em queda livre a todo o momento. Perdia-me pelas ruas da cidade vagamente, para quem sabe encontrar uma razão pela qual valesse a pena viver. Abandonada. Esquecia-me em qualquer lugar, que às vezes nem eu mesma conseguia me achar. Isolada. Desolada. O mundo e, todas as coisas pareciam ser incoerentes para mim; o ar era sempre tão pesado e rarefeito que me causava uma fobia quando tinha pretexto de respirar. Conheci tantos lugares sombrios onde a solidão se abrigava, passei por túneis que mais pareciam um beco sem saída, e salas cinzentas onde a lua gostava de se esconder e deixar a noite sem luar, e só de hesitar em lembrar dessa tortura meus olhos ficam desesperados e, minhas pernas começam a perder totalmente o equilíbrio. Tudo estava tão vazio, tão fora de foco, sem vida alguma. Sentia-me em um deserto escuro, e parecia que quanto mais eu caminhava mais eu me perdia, e menos eu via o final do horizonte. Os fantasmas gostavam de me perseguir nas horas vazias - aliás, o tempo todo era vazio, e o ponteiro do relógio parecia nunca sair do lugar. O medo vivia assobiando meu nome, e só de lembrar me causa calafrios. Tudo parecia não ter força alguma para mover as engrenagens e seguir em frente; até mesmo as estações. O inverno sempre fora a mais demorada de todas as estações; era como se o frio congelasse minhas articulações, e despisse de vez a mínima vontade que eu ainda tinha de viver. O ano parecia triplicar de dias, meses, horas, segundos, milésimos de segundo. Tudo era motivo de dor, de sofrimento, e rancor. Até que tua beleza e seu calor ardente trouxeram a primavera de volta - aquela que há tanto tempo eu não via. Tudo que era pudor se transformou em flor na minha vida. Os fantasmas foram expulsos de mim; o vazio do antes se transformou no transbordamento do agora, que me enche o peito e o coração de alegria e amor; e me faz ver a vida como se ela fosse um passarinho, se libertando de tudo, batendo suas asas no céu, podendo sentir o vento nos dedos do pé e, o mormaço do sol na face esbranquiçada. Você veio como um anjo, e me deixou boquiaberta com o magnífico brilho dos seus olhos - que mais pareciam diamantes quando entravam em contato com a luz. Sua voz foi simplesmente a melodia mais linda que já escutei em toda minha vida; uma melodia tão restauradora e contagiante que mandou para bem longe qualquer tipo de tristeza que estava impregnada em mim. E foi essa sua dádiva que fez com que a minha vida - que estava absolutamente perdida - se enchesse de vida e cor.

Do preto e branco se fez arco-íris. Gabriela Savian